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Sábado, 23 de outubro de 2021
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Deveria ser proibido morrer jovem. Deveria ser proibido perder filho. Médico e empreendedor deveriam ser imortais...

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... Porém, nem tudo é como deve, como merece, como necessita. Felipe Pedrosa Machado vivia no circuito Uruaçu – Goiânia – Senador Canedo. Melhor cérebro de uma família formada por inteligentes. Era médico, mas preferia conversar com ele sobre um assunto em que se mostrava doutor: o empreendedorismo. Política e economia, também, mas nesses o Felipe supunha que eu soubesse mais. Até vir o inesperado na noite desta quarta-feira, 15 de setembro – justamente no aniversário de outros dois grandes amigos, José Artur Cardoso de Oliveira Júnior e Luiz de Aquino Alves Neto, representantes de diferentes gerações, os três nunca foram apresentados. Junto com Felipe, formam um trio de esperança de que o mundo tem jeito. Se todas as demais coisas do planeta não prestarem, a amizade com pessoas do tipo Felipe, José Artur e Aquino faz valer a pena continuar a luta na Terra. Para nossa alegria, elas prestam.

Felipe nasceu da Márcia e do Azarias, o Machadinho, lideranças empresariais e políticas no Norte Goiano. Não falei ainda com o Machadinho. Deve estar desolado. A Márcia, então... Mais que dos parentes e amigos, Felipe era orgulho de Uruaçu. Com paciência maior que o Lago de Serra da Mesa nos bons tempos, exercia a Medicina junto ao povão. Perguntei como chegou a esse ofício. Disse que era assunto para preencher um livro – queria falar de pacientes, não de si. Perguntou se topava ajudar na empreitada. Topei. Desfiou histórias da gente simples, humilde igual a ele. Em todas, o brilho no olhar de quem vê o sofrimento alheio para resolvê-lo, não para fazer dele cavalo de batalha. A batalha pela saúde na região é cavalar – daí seu entusiasmo quando o governador Ronaldo Caiado concluiu a metade que faltava, equipou e colocou para funcionar o Hospital do Centro-Norte Goiano, em Uruaçu.

Iluminado ficava a falar de empreendedorismo. Seu diagnóstico para as políticas públicas de desenvolvimento transbordava precisão. Pelo jeito, estudava os temas – característica de outro médico goiano, amigo de seu pai: ele, Ronaldo Caiado. Felipe palestrava sobre os modelos viários nacionais, a carnificina dos juros, o lamaçal de tributos, a desindustrialização. Tenho a mania de falar muito mais que meus interlocutores e o Felipe era tímido e educado – ficava uma disputa estranha, ele no modo normal, eu no 2x. Ainda assim, ele dava aula. Não sei quão bom médico foi, mas se mantivesse o patamar do empresário seria suficiente para clinicar no Einstein ou no Sírio-Libanês.

Não somente as questões dos clientes eram suas: Felipe somatizava os problemas nacionais. Tirava-os da agenda do Ministério da Economia e colocava na sua. A pauta para impedir a legislação de atrapalhar o ambiente de negócios não era do Congresso Nacional, era do Felipe. Daí suas reivindicações apresentarem caráter coletivo – pessoa de caráter é assim. Daria um livro, mesmo.

Tinha 31 anos e muita pressa para rodar pela BR 153 duplicada. Ver sua Uruaçu como polo de logística no Cone Sul, ferrovias atravessando da Bahia e indo encontrar o Pacífico, rodovias cortando estados e países. Partiu antes, mas antes ainda combateu o bom combate. Seus sonhos continuam ativos. Sua vontade de o Brasil deslanchar é um legado interessante que deixou conosco.

Sugiro ao governador Ronaldo Caiado que batize o HCN de Hospital do Centro-Norte Goiano Dr. Felipe Pedrosa Machado. Homenagem justa. Ele quis demais aquela unidade de saúde. Brigou muito para que saísse. É possível rever o Felipe de 2017 durante uma visita aos escombros do governo da época. Eu me protegendo do Sol causticante à sombra de um poste. Ele com um dos pés no arame da obra do hospital em construção interminável. Ambos tentando entender como tantos mentiam tanto sobre o canteiro de destroços. Felipe dizendo que Caiado o concluiria e seria “bom demais, rapaz, bom demais” para a região.

Há na mente outras imagens do Felipe de 2016 até 2021 verbalizando melhorias para o polo industrial de Uruaçu. Ele às margens da Belém-Brasília, mirando o Norte, depois o Sul, falando de mineração, transporte, planta de indústria com nosso amigo comum Marcos Cabral, ambos planejando transformar em delícias as dores do progresso local. Os dois entusiasmados, projetando um Daia no matagal, nem aí para o calorão, eu louco para passar um picolezeiro ali longe das ruas movimentadas.

Nem se tivesse o vocabulário do Aurélio Buarque reuniria palavras suficientes para consolar o amigo Machadinho e a Márcia. Deus as dirá.

Felipe era um anjo de branco. Bateu asas. Está velando por todos nós lá de cima. 

 

Créditos (Imagem de capa): Foto: rede social